VENTO A FAVOR

Oléo Sobre Tela

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Ano 2014

 

Hoje tem vento a favor. A pipa sobe aos céus, levando recadinhos dos meninos pra Jesus. Eram papeizinhos colados na rabiola. Se a pipa voltasse inteira, tudo certo. Deus tinha lido. Já era um começo. Às vezes dava certo. Só que Deus nem sempre lia, ou o pai esquecia.

“Tomara que meu pai ganhe bastante dinheiro, nesse fim de semana, pra me levar ao cinema.” pedia um menino.

Olha o trem! Gritava outro. Daqui a pouco chega a noite!

Chegavam também os vizinhos pra jogar conversa fora.

Chegava a gente da roça procurando ninho, abraço, descanso.

Era hora de por água no feijão, assar o pão, coar café, tomar banho ,bater bolo, preparar o amanhã.

A molecada ainda corria atrás de bola, cachorro, passarinho, manga, pião, menina bonita.

-“Desse jeito logo, logo, tem moleque casando,” ela pensava com seus botões. Daqui a pouco ... no fundo, ela sabia que tudo iria mudar, dali a pouco. Mudar de casa, de rumo, cidade. Tudo ia tomar jeito dali a pouco.

“ Deus me ajuda” Pedia, pedia muito. “Tomara que tenha um filho doutor” suspirava todinha, igual a tardinha que suspirava também...

Só ela, dona Doninha, a mulher do daqui a pouco, não mudava.

Não mudava nunca...Todo dia a mesma coisa. Igual. Igual. Simplesmente igual. A mesma Ave Maria, o mesmo arroz com feijão. .Só a paisagem se atrevia a mudar, mudar de cor, de estação, de patrão.  O resto era só suspiro em cima de suspiro. Quase um merengue. 

De repente me sinto verde...

 

Por que? Só porque não gosto de suspiro?